Hoje, apesar de real, a tecnologia está com um hype excessivo. A jornada está apenas começando. Os desafios são grandes, temos muita coisa para aprender, muitas chances para errar. Mas quem acertar, tem muito a ganhar.

Venho observando uma crescente curiosidade de executivos e profissionais de TI sobre Blockchain. Entretanto, pelo desconhecimento e desinformação sobre o assunto, ainda existe um grande receio por parte deles de darem um mergulho mais fundo na tecnologia e na descoberta de seus potenciais usos.

Blockchain muitas vezes é simplificado como uma mera tecnologia de banco de dados distribuído, com a diferença das informações serem gravadas em blocos que estão ligados entre si por meio de “nós”, garantidos através de criptografia, com o objetivo de se certificar que são à prova de fraudes.

Mas, e se pensarmos além da caixa, nem mesmo usando a caixa como referência? Será que Blockchain é apenas uma tecnologia que nos permite melhorar, incrementalmente, a eficiência de processos? Ou podemos ir além?

Como disse Mike Schwartz, líder do Blockchain Technologies Lab da BCG, em uma recente palestra no TED, intitulada “The potential of blockchain”, “vez ou outra, uma tecnologia realmente revolucionária surge e sempre nos leva a lugares que nunca imaginamos. Vimos esse cenário com o motor a combustão, o telefone, os computadores e, é claro, com a Internet. E agora, mais uma dessas revoluções está prestes a nos transformar – e ela é a tecnologia de Blockchain”.

gora pense em outra frase de Mike Schwartz: “Blockchain pode comoditizar a confiança, como a Internet comoditizou as comunicações”. Isso não afetaria de forma dramática os negócios que foram construídos para garantir confiança nas transações entre pessoas e empresas estranhas umas às outras?

Blockchain é real e está acontecendo. Estamos ainda no início da curva de aprendizado, e a implementação de uma aplicação utilizando Blockchain ainda é tecnicamente complexa, pois existem poucas tecnologias, padrões e frameworks disponíveis realmente maduros. Algumas ações colaborativas, de open source começam a ganhar força, como o Hyperledger, projeto da The Linux Foundation que reúne nomes de peso como Intel, IBM, Hitachi, Accenture, JP Morgan, CME Group e Deutsche Börse, entre outras, e consórcio R3, constituído por 60 instituições da indústria financeira como BBVA, Barclays, CreditSuisse, Santander, Morgan Stanley, e recentemente bancos brasileiros aderiram como o Itaú e o Bradesco, além empresas de tecnologia, com o objetivo de desenvolver aplicações comerciais baseadas na tecnologia. A bolsa brasileira BM&FBOVESPA, inclusive, foi a primeira bolsa de valores do mundo a entrar no programa.

Provavelmente, com os investimentos dessas empresas, o ciclo de amadurecimento deve se acelerar e podemos estimar que por volta de 2018-2020 a tecnologia estará razoavelmente madura para ser utilizada em ampla escala. Enquanto isso, o que podemos fazer?

Vivemos um período de profundas e dramáticas transformações provocadas pela exponencialidade da revolução tecnológica, e obviamente não podemos ignorar tecnologias que podem afetar a maneira como negócios atuais operam. Como no início da Internet, muitas iniciativas fracassaram, mas surgiram negócios inimagináveis há 20 anos como Amazon, Google, Facebook, Waze, Uber, Airbnb e centenas de outros. Portanto, a decisão não pode ser ignorar Blockchain, mas definir se a estratégia da empresa será mais ou menos conservadora quanto à sua adoção.

Não existe resposta única. Uma visão inovadora explora a possibilidade de criar novos negócios, afinal a frase do escritor americano Mark Twain é clara “o passarinho que acorda cedo é o que pega a minhoca”. Por outro lado, uma atitude mais conservadora pode ter seus apelos. Muitas vezes o segundo rato é que come o queijo!

A resposta vai depender da visão de cada empresa e de sua liderança, setor de negócios, atitude em relação à riscos, etc. Independente da velocidade, creio que podemos explorar dois caminhos para uma estratégia de implementação de Blockchain: criar experimentações internamente, com um “Blockchain lab”, mais focado em mudanças incrementais, ou criando e acelerando startups, com maior ênfase na disrupção do próprio negócio.

O processo de criar e acelerar startups permite que se crie negócios a partir do zero, sem as limitações dos pensamentos já arraigados nos processos e operações internas. E, claro, existem composições variáveis entre esses dois extremos. Uma estratégia para startups é a utilização de “Corporate Ventures” com a empresa identificando e acelerando startups focadas em objetivos bem definidos, como a reinvenção do próprio negócio através de Blockchain.

Mas, qualquer que seja o caminho adotado, o processo de grandes corporações usarem Blockchain, seja para transformarem processos, seja para reinventarem-se a si mesma, não acontecerá de um dia para o outro.

Pensemos em um grande banco. Os interfaces digitais com seus clientes podem ser comparados a visão que temos de um iceberg. É a parte visível, acima da superfície do oceano. Mas, como mais de 90% do volume do iceberg está debaixo da superfície, também a imensa maioria dos processos de backoffice do banco estão fora das vistas dos clientes, mas operados por milhares de processos, sistemas e dezenas de milhares de profissionais. Se a tecnologia Blockchain eliminar grande parte dessa complexidade, o banco como o iceberg vai continuar existindo, mas será visto de outra forma. Imaginem como ficaria um iceberg quando elimina-se a maior parte de seu volume submerso. Teria outra aparência na superfície. O mesmo seria o banco. Diferente e talvez irreconhecível aos nossos olhos de hoje.

Comecemos a explorar um “Blockchain lab”. Antes de mais nada é essencial que seja visto como uma estratégia da corporação e não como uma simples experimentação tecnológica. Que isso significa? Que sem patrocínio da alta administração (preferencialmente o CEO) e, claro, budget adequado, não se chegará a lugar nenhum.

O “Blockchain lab” deve ter metas e objetivos mensuráveis. Deve ter uma organização que envolva profissionais do negócio e de tecnologia, eventualmente com apoio de pessoal externo. Deve ter um road map de projetos que analise e identifique os casos de uso mais adequados, e suas estratégias de implementação e incorporação ao negócio. Isso significa sair do mundo mais simplista das POCs para o mundo real, transformando processos internos.

O lab deve ser o balão de ensaio para validar tecnologias, frameworks, plataformas dos fornecedores e modelos de desenvolvimento de aplicações Blockchain. Existe hoje uma escassez de talentos, mas buscas por casos mundiais sempre ajuda. Por exemplo, um paper interessante, embora básico, sobre como construir aplicações de smarter contracts é “Step by Step Towards Creating a Safe Smart Contract: Lessons and Insights from a Cryptocurrency Lab”.

Uma iniciativa Blockchain começa com a liderança acreditando no potencial de disrupção ao seu negócio. O primeiro passo para isso é educação, disseminar o conhecimento do que é e da potencialidade do Blockchain para os executivos. A partir daí, identificar as áreas de oportunidades de aplicação de Blockchain na empresa. Blockchain é 80% processos de negócios e 20% tecnologia. Uma pergunta chave é “ que problemas Blockchain pode resolver?”. Como respostas podemos ter aplicações de impacto imediato na redução de custos, aumento da eficiência de processos, maior velocidade nas transações, eliminando tarefas, redução de fraudes e assim por diante. Esses, por exemplo, são os focos de interesse atual dos bancos.

Mas, não se limite a isso. Pergunte também “ que novas oportunidades poderemos criar com Blockchain”? É mais difícil, pois muitas vezes obriga a começar com um papel em branco. Caminhar nessa direção é mais fácil com startups fora das restrições dos pensamentos internos. Podem surgir propostas provocativas e disruptivas, que à primeira vista serão encardas como heresia. E serão heréticas mesmo! Esse cenário pode apontar para criação de novos produtos e mesmo novos negócios, entrada em novos mercados, atrair novos clientes, e, claro, requer imaginação não limitada pelo modelo de negócio atual.

Essa frase de Einstein se encaixa perfeitamente bem aqui: “Imagination is more important than knowledge. For knowledge is limited to all we now know and understand, while imagination embraces the entire world”.

A jornada está apenas começando. Os desafios são grandes, temos muita coisa para aprender, muitas chances para errar. Hoje Blockchain, apesar de ser real, está com um hype excessivo. Ainda vamos descobrir que tem muita coisa pela frente, muitas desilusões. Mas, as empresas que não ficarem inertes, terão uma indiscutível vantagem competitiva.

A lista das oportunidades que vemos com Blockchain, em experimentos promissores, é enorme. Um exemplo? Rastreamento de diamantes, como proposto pela Everledger. E num futuro, não muito distante, em que essa tecnologia esteja mais conhecida e popularizada, todo setor de negócios deve se beneficiar dela.

É realmente algo para pensar!

Que novas oportunidades poderemos criar com Blockchain?