Consumo de energia elétrica para produzir moedas digitais tem preocupado autoridades em várias partes do mundo.

A quantidade de energia elétrica necessária para produzir moedas digitais, tais como Bitcoin, Ethereum e outras, tem despertado preocupação das autoridades em várias partes do mundo. As discussões giram entorno do desequilíbrio elétrico localizado e do impacto ambiental causados por essa indústria. Há países como a China e o Canadá, por exemplo, que já manifestaram desagrado com o avanço da atividade em suas fronteiras, de acordo fontes ouvidas pela Agência CanalEnergia.

A mineração de criptomoedas é o processo de criar novas moedas virtuais e de registrar as transações realizadas entre os agentes. O termo ficou popular pela semelhança com o processo da mineração do ouro, onde garimpeiros trabalham arduamente, quase sempre sob condições precárias, para conseguir encontrar algumas gramas do metal valioso. No mundo virtual, ao invés de pás e peneiras, a mineração é feita a partir de softwares específicos instalados em supercomputadores, rodeados de climatizadores de ar, e que funcionam 24 horas, 7 dias na semana.

Eletrointesivo móvel

Com o boom das criptomoedas, especialmente o Bitcoin, o elevado consumo de energia elétrica na sua mineração tem recebido cada vez mais atenção. De acordo com estimativas da Digiconomist (Bitcoin Energy Consumption Index – BECI), já beira os 50 TWh o consumo anual com operações de mineração de Bitcoin em todo o mundo, algo da ordem de 10% do consumo total de energia elétrica no Brasil.

A China responde por cerca de 80% desse montante e estima-se que o Brasil represente uma fatia mínima desse consumo. Os mineradores buscam energia barata, já que representa o principal custo dessas operações. A China, assim como outros países, tem cogitado restringir a mineração e até mesmo banir as criptomoedas.

Pode-se ver o minerador como um consumidor eletrointensivo “móvel”. Os processadores estão usualmente em contêineres e o deslocamento destes contêineres funciona como um mecanismo de gestão de risco natural contra o preço alto da energia. “Diante da possibilidade de movimentação, o investimento em infraestrutura para estas cargas deve ser pensado com cuidado. Além disso, os processadores podem ser rapidamente desativados caso haja desvalorização da moeda, por exemplo. Isso tudo introduz uma nova dinâmica aos estudos de planejamento”, explica Luiz Barroso, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Segundo Thiago Barral, diretor de Estudos Econômicos e Meio Ambiente da EPE , apesar de a atividade de mineração ainda ser pouco relevante no crescimento do consumo de energia, as autoridades devem estar atentas. Os efeitos locais podem ser relevantes, caso um grande número de mineradores resolva instalar-se no mesmo lugar.

Como essa atividade pode ser feita até mesmo em uma garagem, o especialista recomenda que as distribuidoras monitorem rápidos aumentos das perdas comerciais em determinadas áreas, para que ações corretivas possam ser tomadas. Autoridades chinesas já realizaram operações contra o roubo de energia para kns de mineração e mais de 6 mil máquinas foram apreendidas em 2016.

A rede Bitcoin usa o Blockchain para registrar todas as transações. A tecnologia, aplicada nas operações comerciais, acaba com a necessidade do intermediário de cobrança (um banco, por exemplo) para garantir a segurança das transações. A tecnologia permite que se mantenha um registro contábil público e seguro pela internet. Esse registro não é controlado por ninguém. No Blockchain, todas as transações são registradas, inclusive informações sobre data, hora, participantes, quantias de cada transação. Cada “nó” possui uma cópia das operações anteriores. Os princípios matemáticos asseguram que esses nós concordem continua e automaticamente. Se alguém tentar alterar os dados, esses nós não chegarão a um consenso, logo, o sistema irá recusar a transação.

Barral explica que existe um trade-off entre segurança e custo de mineração de criptomoedas, ou seja, quanto mais proteção se busca no registro das transações, maior a complexidade da criptograka e o consequente custo computacional, com aumento do consumo de energia. A valorização das criptomoedas, em especial o Bitcoin, gera concorrência e uma corrida por processadores cada vez mais potentes, acelerando brutalmente o consumo de energia nessa atividade.

Ele conta que os fatores determinantes na atração da atividade de mineração são três: (i) energia elétrica barata; (ii) clima ameno, que reduz o consumo de energia com climatização; (iii) acesso a internet de qualidade. Na China, as instalações de maior porte estão concentradas no interior do país, onde os mineradores tem acesso à energia hidrelétrica barata, já amortizada e vendida “a custo”, e se beneficiaram de sobrecapacidade instalada (sobretudo hidrelétrica e carvão).

A participação do Brasil nessa atividade até agora tem sido desprezível, mas o Paraguai tem atraído investidores devido ao baixo preço da energia elétrica. De acordo com o gerente de projetos da PSR, consultoria brasileira especializada no setor de energia, o consumo de energia no Paraguai tem crescido a taxas superiores a 10% ao ano.

“Como a energia é um dos principais custos da mineração de criptomoedas, é natural que agentes atuantes nesse setor busquem regiões onde a energia é mais barata. A Islândia, por exemplo, que tem um excelente potencial hidrelétrico e geotérmico, tem se mostrado um destino atraente para data centers – e este é um caminho natural para o Paraguai, que possui um potencial hidro muito maior que a demanda do país”, diz Cunha.

Como a tarifa de energia no Brasil é alta, nosso país não precisa se preocupar diretamente com a atuação dos mineradores de moedas digitais. Porém, concorda que um aumento do consumo no país vizinho pode trazer consequências por aqui no futuro, pois pode impactar nos montantes de energia que o Paraguai disponibiliza da hidrelétrica Itaipu (PR-14.000 MW) para o Brasil após 2023, quando o acordo binacional entre os países deverá ser renegociado.

Na opinião de Rocelo Lopes, quanto mais popular e mais valorizadas ficarem as moedas digitais, mais investidores vão migrar para esse negócio. E como alguns países estão proibindo essa atividade, é possível que o Paraguai atraia mais interessados. Lopes diz que tem estabelecido conversas com a estatal Ande, para que haja investimento em infraestrutura de energia elétrica tem de acomodar essas “fazendas de mineração”.

O impacto ambiental da mineração de criptomoedas também tem sido cada vez mais discutido, com questionamentos acerca da relação custo/benefício. Há críticas em relação às emissões que toda cadeia de mineração pode causar no planeta. Algumas criptomoedas, como a Ethereum (principal “concorrente” do Bitcoin), planejam alterar o processo de mineração para um modelo que exija menos energia.

Moedas digitais e o impacto na rede elétrica